A esquerda está boicotando este filme. E esses são 6 motivos por que você deveria assisti-lo no cinema.

O Plano Real tem cheiro de estelionato eleitoral”

Luiz Inácio Lula da Silva

O Plano Real não passa de um remendo.”

Gilberto Dimenstein

Existem alternativas mais eficientes de combate à inflação (…) É fácil perceber por que essa estratégia neoliberal de controle da inflação, além de ser burra e ineficiente, é socialmente perversa.” 

Guido Mantega

Muito antes de o ex-ministro da Fazenda Guido Mantega tornar-se conhecido como autor das pedaladas fiscais e do programa de campeões nacionais que premiou gigantes como JBS, Odebrecht e Eike Batista com vastas quantias de dinheiro público, suas opiniões como então conselheiro econômico do candidato à presidência Luiz Inácio Lula da Silva ajudaram a balizar o discurso naquele que seria um dos momentos mais tensos da história do Brasil: o Plano Real e as medidas de ajuste necessárias para colocá-lo de pé.

Relembrar casos como este não deveria ser um grande problema, afinal, estamos em 2017 e todas as opiniões passadas de algum político podem ser achadas com uma pesquisa simples na internet. Ao trazer esta história novamente à tona, porém, o filme Real – O plano por trás da história tornou-se um prato cheio para os críticos, virando alvo de boicotes de cineastas e alunos de cinema em exibições programadas do filme.

A seleção de filmes de direita (incluindo aí o documentário O Jardim das Aflições), foi a motivação que levou sete diretores a se retirarem de um festival de cinema de Pernambuco, o Cine PE.

Na opinião dos diretores, os filmes:

divergem da linha de pensamento do cinema que vem sendo feito no Brasil, que é em sua maioria político, buscando as diferenças, debatendo machismo, diversidade sexual”

A despeito disso, o longa – dirigido por Rodrigo Bittencourt e baseado no livro 3000 dias no bunker, do jornalista Guilherme Fiuza – segue para exibição nos cinemas (com estreia no dia 25/05). Um thriller com momentos de tensão e sacadas heróicas, que retrata a criação do mais bem-sucedido plano econômico da história do país.

Se você é destes que não curte ver partes tão importantes da nossa história virarem motivo de disputa de egos entre políticos, Real é uma ótima oportunidade para descobrir que criar algo assim não se resume a assinar um decreto e mandar pintar novas moedas, desta vez coloridas.

Pensando nisso, decidimos listar seis motivos pelos quais você deveria dar uma conferida nesta saga brasileira:

1. Este definitivamente não é um filme sobre políticos.

Produzir um filme envolvendo alguns dos nomes mais conhecidos da política nacional ainda vivos, como os ex-presidentes Lula e FHC, poderia parecer uma ideia estranha para uma época como a nossa, onde polarização virou uma palavra da moda. Poderia, exceto por uma razão simples: ao contrário do que querem fazer crer em suas biografias os políticos de um lado ou outro do plano, suas ideias passaram longe do operacional e longe de ter grande impacto na formulação do Real, o tema central do filme.

Com nomes que variam entre os reais e os fictícios (note-se que os nomes de políticos do PSDB são todos citados para desagrado de alguns, enquanto os nomes de políticos petistas são fictícios, para unificar em um personagem nomes tão variados quanto Aloísio Mercadante, o ex garoto propaganda do Plano Cruzado e do congelamento de preços no governo Sarney, e de José Genoíno, ex-presidente do PT), o filme ajuda a entender a participação de figurões da política nacional na época.

Itamar Franco, que assumiu a presidência após o impeachment de Fernando Collor, é um presidente atormentado por uma dúvida simples e compreensível na política: como evitar entrar para a história como mais um presidente fraco e incapaz de controlar a inflação e o desemprego? Ao optar por dar a Fernando Henrique Cardoso – que ocupava o cargo de ministro da Fazenda – a missão de selecionar um time capaz de apresentar uma proposta razoável, Itamar acaba transferindo a responsabilidade e tirando um peso das costas.

Ao longo do tempo, as pressões políticas tornam-se inevitáveis. Políticos dos mais variados partidos, militares e representantes de setores da sociedade, como industriais ou banqueiros, pressionam e o resultado é um presidente se equilibrando para agradar a gregos e troianos.

O resultado é visível e justo. O papel mais importante que um político desempenhou em toda esta história foi justamente o de impedir que outros políticos atrapalhassem as coisas. É um papel importante e raras vezes bem desempenhado na história brasileira (e fundamental quando de fato ocorreu), mas longe garantir um título de paternidade sobre uma ideia tão complexa.

2. É um plano que combateu o rentismo dos bancos, peitou os especuladores, aumentou o poder de compra da população, diminuiu a miséria e, no final, foi chamado de neoliberal e anti-pobre.

Compreender o que foi o Real não era uma tarefa fácil, mesmo na época. Se você ainda não chegou aos 30, dificilmente conseguirá compreender o sentimento de frustração que acompanhou o país ao longo de quase dez anos de tentativas para solucionar o problema. Pode não entender bem a descrença quase geral em qualquer nova medida adotada pelo governo da vez para conter algo que hoje parece tão distante: uma inflação que chegou a incríveis 1,4 trilhão por cento ao longo de duas décadas, a mais duradoura da história do ocidente.

São 2% a mais nos preços gerais a cada 24 horas. Escapar de efeitos como a corrosão dos salários e do poder de compra era um privilégio para poucos. Como hoje, boa parte da população adulta brasileira sequer possuía acesso a bancos e, portanto, não tinha proteção alguma.

Aos que possuíam este privilégio, o overnight era a operação da moda, garantindo que o dinheiro investido não fosse de fato corroído pela inflação.

Para os bancos, inflação tornou-se um negócio, dos mais lucrativos. Ao criar moeda (emprestando sempre mais do que possuem em caixa), bancos acabavam se beneficiando da inflação, e podiam assim, lucrar sem de fato ter de fazer nada.

A regra é simples, em uma situação onde o dinheiro derrete todo dia: o primeiro a encostar na grana tem mais poder de compra que o segundo e assim por diante.

Na prática, segundo apontam os economistas Simonsen e Cisne, os bancos chegavam a lucrar 2% do PIB apenas criando dinheiro. Para se ter uma ideia, hoje isto representaria R$ 120 bilhões, ou três vezes o lucro somado dos dois maiores bancos do país, apenas com inflação, sem ter de emprestar um centavo sequer.

O resultado pós-plano, e pós-inflação, foi o fim da transferência de renda dos que não produziam moeda aos que produziam moeda, ajudando a reduzir em 10 milhões o número de miseráveis no país entre 1993 e 1996, além da quebra de inúmeros bancos, que agora eram obrigados a emprestar dinheiro e prestar serviços para sobreviver.

3. Retrata uma época na qual lutamos para não adotar uma política econômica vira-lata pautada em enriquecer a indústria.

Por quase sete décadas, incentivar a indústria nacional tem sido quase um mantra repetido pelos políticos brasileiros e adorado pelo empresariado. No entanto, o apoio não se dá pelos caminhos óbvios: melhorar a infraestrutura, reduzir burocracia e facilitar investimentos.

Na prática, o incentivo ao industrial é o que Gustavo Franco, ex-presidente do Banco Central e protagonista do filme, chama de privatizar o lucro e socializar as perdas.

Para garantir que nossos empresários possam exportar e assim trazer dólares ao país, nossos políticos gentilmente concordam em desvalorizar o câmbio. Em outras palavras: permitir que US$ 1 compre mais e mais Reais (ou seja lá qual for a moeda vigente), tornando mais fácil que estrangeiros comprem o que produzimos e mais caro que os brasileiros comprem o que estrangeiros produzem.

Técnicas como essa, de empobrecer a população para garantir o lucro da indústria e a consequente entrada de dólares e receita pro governo são mais do que usuais, são praticamente a regra por aqui.

Porém, como fica claro no filme, a opção de manter R$ 1 valendo o mesmo que US$ 1 é necessária na luta para modernizar o país e de quebra aumentar a autoestima do brasileiro. Ao manter uma cotação como essa, torna-se possível, por exemplo, importar máquinas ou bens de consumo que aumentem a produtividade e a satisfação do trabalhador brasileiro. Ao longo do filme, no entanto, não são raros os políticos que insistem na desvalorização como melhor alternativa.

4. José Serra e boa parte do PSDB detestaram o filme.

Muito antes de se ocupar com as delações da Odebrecht ou JBS, José Serra chegou a preocupar-se com o filme. Há relatos de que Serra teria interferido até mesmo na cor do terno que seu personagem utilizaria. Apesar disso, ele é provavelmente a figura mais bem interpretada do filme.

Serra é, como era de se supor, um político com formação em economia, defensor ferrenho de ideias desenvolvimentistas (em resumo, boa parte das medidas econômicas adotadas entre 2008 e 2014, como o incentivo à indústria por meio de financiamento e desvalorização cambial, isenções fiscais e estripulias do tipo).

Seu personagem acaba expondo algo pouco notado até aqui: a recusa de boa parte dos setores do PSDB em lidar com economistas interessados em aplicar ideias distintas daquelas que fundaram o partido.

Como manda a Social Democracia que dá nome ao partido, a ideia de um Estado menor e mais focado não é das mais agradáveis. Privatizar empresas como a Vale, por exemplo, é motivo de imensa revolta e o resultado é que, mesmo com a participação de grandes nomes da área econômica que se opusessem a isso, o Estado brasileiro cresceu como nunca neste período em termos de carga tributária, ainda que tenha saído de alguns setores da economia por meio de privatizações.

5. Esqueça aquela disputa simplista sobre quem é o pai do Real. Foi um plano que durou ao menos cinco anos.

Saber definitivamente quem é o pai do Plano Real é algo que há décadas incomoda, e muito, determinados políticos brasileiros. Para uns, FHC é o pai da estabilidade, enquanto para outros – notoriamente os que se opõem ao governo tucano – Itamar é o grande responsável, tendo em vista que o plano foi posto em prática ainda no seu governo.

Ao contrário desta briguinha de egos, o plano foi amplo e abrangeu muito mais que a foto oficial de lançamento das novas cédulas. Envolvendo um ajuste fiscal severo, que tirou do armário inúmeros esqueletos, reestruturou o sistema financeiro parasitário da inflação, ajudou a salvar os estados que até então se financiavam por meio de impressão de moeda em seus bancos estatais e ainda teve de enfrentar a especulação e a descrença no mercado financeiro internacional.

Colocar tudo isso em prática significou, de maneira resumida, unir o discurso entre a área fiscal, com Pedro Malan no ministério da Fazenda, e a área monetária, com os três presidentes do Banco Central retratados no filme.

Tudo isso é difícil de traduzir para o linguajar politiqueiro.

Como se sabe hoje, por exemplo, Itamar foi um dos defensores do congelamento de preços, justamente por se tratar de uma medida bastante popular, por criar uma sensação de alívio momentânea.

Lutar contra sandices como essa foi o que fez os membros da equipe envolvidos os verdadeiros pais do plano.

6. É um alerta sobre o peso do populismo na vida das pessoas.

Imagine que você fosse governador de algum estado brasileiro e lhe dissessem que ao invés de se indispor com a população elevando impostos, você poderia simplesmente imprimir dinheiro e pagar suas despesas. Parece uma ótima ideia não? Por décadas, esta foi a lógica dos governos brasileiros. Era simples e mantinha uma farra sem qualquer controle, que agradava à população e aos próprios políticos.

O problema é que, para qualquer um capaz de ligar causa e consequência, os déficits consecutivos por parte dos governos e o aumento da quantidade de moeda em circulação levavam a uma situação previsível: cada vez a moeda valia menos.

Justamente por favorecer banqueiros e políticos, nossa inflação acabou perdurando, e muito. Chegamos ao ponto de ter economistas insistindo que possuíamos uma cultura de inflação, que era algo ligado à própria população. Felizmente, ideias como essa ficaram longe da formulação do Real.

Para impor essa mudança drástica, foi preciso pulso firme com políticos dos mais influentes e, justamente por não topar se render ao discurso fácil, o plano foi bem sucedido.

O mérito aí é apenas o de se negar a manter-se na ilusão.

Vencendo este pequeno detalhe, pudemos enfim testemunhar a adoção de uma moeda forte, além de um importante recado: fraudes contábeis – ou pedaladas, como quiserem chamar – não nascem ao acaso. São fruto da insistência de políticos em negar a realidade e fantasiar os ocorridos.