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A Revolução Russa completa 98 anos hoje. E esse é o melhor texto que você lerá a respeito.

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O dia 7 de novembro marca o aniversário da Revolução de Outubro, ocorrida na Rússia em 1917. Os acontecimentos ocorridos na época consolidaram o Partido Bolchevique no poder, iniciando o processo que culminou na formação da União Soviética em 1922.

Por que exatamente o evento se chama Revolução de Outubro, se faz aniversário em novembro? O estranho descasamento entre nome e data tem seu motivo. À época, a Rússia era um dos poucos países europeus a ainda utilizar o calendário juliano, sistema de contagem de datas implantado em 46 a.C. por Júlio César (daí o nome) e que antecedeu o calendário gregoriano, adotado na maior parte do Ocidente em 1582 e nos anos seguintes. Devido a falhas na contagem dos anos bissextos, o calendário juliano acumula uma diferença de 13 dias em relação a seu sucessor: desse modo, a data que a maior parte da Europa conheceu como “7 de novembro de 1917” foi, na Rússia, o dia 25 de outubro de 1917.

A história da Revolução começou oito meses antes, com a derrubada do regime do czar Nicolau II (Revolução de Fevereiro). A abdicação do soberano foi seguida pela formação de um Governo Provisório, constituído principalmente por nobres e aristocratas, e de vários conselhos de trabalhadores (sovietes), formado por “deputados” ligados a partidos de esquerda (bolcheviques, mencheviques e socialistas-revolucionários). O principal soviete foi instalado na capital do país, Petrogrado.

Embora o Governo Provisório ocupasse nominalmente o poder, grande parte de sua atividade se reportava à aprovação dos sovietes – instituições em tese informais, mas que na prática influenciavam decisivamente setores fundamentais da população russa, como os trabalhadores industriais e o exército. Esse regime, no qual o poder concreto foi repartido entre Governo Provisório e sovietes, se chamou “poder dual” – “dvoevlastie”, em russo. Esse sistema imperou na Rússia de março/1917 até a Revolução de Outubro, capitaneada pelo Partido Bolchevique – grupo de esquerda que detinha influência decisiva sobre os sovietes. Nesse processo, foi decisiva a figura do líder do partido, um tal Vladimir Ilyich Ulyanov. Não reconheceu o nome? Talvez seja ligeiramente mais familiar o apelido que Vladimir adotou em 1901, e que lhe acompanhou até o fim da sua vida: Lênin.

No início de 1917, Lênin (embora a origem seja incerta, acredita-se que o apelido tenha sua origem no Rio Lena, que atravessa a Sibéria) vivia no exílio em Zurique, tendo ouvido falar da derrubada do czar por intermédio de um amigo. Ele já era uma figura de destaque no Partido Bolchevique, autor de diversas obras a respeito do papel do Estado e da revolução socialista. Seu potencial como líder revolucionário atraiu a atenção do governo alemão, interessado em desestabilizar a Rússia com o objetivo de obter a vitória no front oriental da Primeira Guerra Mundial. A Alemanha, assim, ofereceu a Lênin diversas garantias diplomáticas e financeiras para seu retorno a Petrogrado.

Lênin não frustrou as expectativas: assim que pôs os pés em solo russo, começou a trabalhar incessantemente para a derrubada do Governo Provisório e a passagem de “todo o poder aos sovietes”. Esse evento ocorreria em outubro (ou novembro, como preferir), quando um golpe militar levado a cabo pelos bolcheviques, juntamente com uma série de manobras eleitorais dentro do sistema dos sovietes, garantiu ao partido a assunção do poder na Rússia.

Apesar de ter causado consequências históricas profundas, a Revolução de Outubro não foi um evento de grandes dimensões: a propaganda soviética as aumentaria consideravelmente nos anos posteriores. Seu momento-chave, ocorrido no dia 7 de novembro de 1917, foi a tomada do Palácio de Inverno de Petrogrado (sede do Governo Provisório) pelas tropas vermelhas. Embora a propaganda oficial (principalmente o filme Outubro, lançado em 1927 por Sergei Eisenstein) a retrate como um acontecimento de grande porte, na realidade o Palácio era parcamente defendido. Poucas tropas foram necessárias, e quase nenhum tiro precisou ser disparado na ocasião.

Deixemos o resto da história ser contado visualmente – para isso, separamos 18 imagens que retratam momentos essenciais desse processo que mudou decisivamente toda a história do planeta nos anos posteriores.

1. Lênin

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Além de principal líder do Partido Bolchevique, Lênin foi o intelectual que articulou todo o processo de tomada do poder pelos comunistas em 1917. Na foto, tirada em algum momento incerto anterior à Revolução, ele aparece discursando em Petrogrado para um grupo de correligionários. A figura em destaque à direita do balcão é Leon Trotsky – um de seus potenciais sucessores, que acabaria sendo suplantado por Stalin, enviado para o exílio e posteriormente assassinado.

2. O exército

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O exército russo foi um dos principais alvos da propaganda dos partidos de esquerda nos anos que antecederam à Revolução – como mostra essa foto, em que soldados simpáticos aos bolcheviques carregam faixas com slogans marxistas. O meio militar foi um terreno extremamente fértil para a propagação de ideais revolucionários, uma vez que o discurso de “exploração” encontrava grande aceitação entre soldados que não se conformavam com a luta na Primeira Guerra Mundial, travada em condições precárias e contra um inimigo mais forte. Após a Revolução, Lênin pretendia substituir a máquina estatal existente por outra inteiramente nova (veja o capítulo “Socialismo e Estado” deste artigo), processo que incluiria o exército. A realidade, porém, se mostraria mais forte do que as teorias de Lênin: estima-se que mais de 80% dos oficiais que lutaram a Guerra Civil ao lado dos bolcheviques pertencessem às antigas forças czaristas.

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3. “Dias de julho”

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Parte do processo que desembocaria na Revolução de Outubro, os “dias de julho” foram inicialmente manifestações espontâneas de militares em Petrogrado, estimulados por uma recente derrota sofrida contra a Alemanha. A intelligentsia bolchevique aproveitou-se desse movimento, tomando sua liderança e introduzindo nas manifestações as palavras de ordem “vsia vlast’ sovietam” (“todo o poder aos sovietes”), como pode ser observado na faixa na fotografia acima. A manifestação foi contida e o Governo Provisório ordenou a prisão de vários líderes bolcheviques – entre os quais Lênin, que fugiu para a Finlândia, retornando à Rússia em seguida.

4. Soviete de Petrogrado

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Basicamente, os sovietes eram conselhos de trabalhadores – na verdade, deputados escolhidos aleatoriamente nas fábricas e quarteis – que se propunham a deliberar sobre questões relativas à política russa. As fotos retratam o principal deles, o Soviete de Petrogrado, formado na capital do país e que em 15 dias de existência reuniu mais de 3 mil membros.

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O número enorme de deputados tornava as sessões caóticas. Por esse motivo, não tardou até que as decisões do Soviete passassem a ser tomadas inicialmente por seu comitê executivo, conhecido como Ispolkom, e posteriormente levadas à aclamação dos participantes. Os sovietes eram integrados por membros ligados a três partidos de esquerda (bolcheviques, mencheviques e socialistas-revolucionários), os quais divergiam seriamente quanto a diversos temas. A primeira foto é um exemplo – na faixa do canto superior esquerdo, lê-se “Fora Lênin!”.

5. Tomada do Palácio de Inverno

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A primeira foto mostra as tropas da Guarda Vermelha se preparando para o assalto ao Palácio de Inverno, em Petrogrado – sede do antigo governo czarista e do Governo Provisório que lhe sucedeu.

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Na segunda foto, um desfile de tropas leais aos bolcheviques é realizado na frente da construção, após sua tomada – operação que é considerada o marco inicial da Revolução de Outubro e do governo comunista.

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A terceira foto, embora seja comumente divulgada como um registro histórico do evento, trata-se na verdade de uma reencenação – a invasão do palácio ocorreu à noite, e não havia câmeras por perto.

6. Novo governo

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Proclamação do Milrevcom de Petrogrado na qual é anunciada a derrubada do Governo Provisório. Os Milrevcom (Comitês Militares Revolucionários) foram órgãos militares criados pelo Partido Bolchevique para conduzir a tomada do governo russo. Mais de 40 comitês foram criados e distribuídos ao longo de todo o território russo.

7. Nova capital

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Lênin, alguns comandantes militares e o exército marcham na Praça Vermelha, em Moscou. Moscou foi tomada pelos bolcheviques em 15 de novembro de 1915, e sua captura passou por combates mais violentos do que os ocorridos em Petrogrado – alguns historiadores russos os consideram como as primeiras batalhas da Guerra Civil. Posteriormente, a cidade se tornaria a capital do país. A transferência ocorreu em março de 1918, temendo-se agitações em Petrogrado (cidade que depois foi renomeada como Leningrado, e hoje é conhecida como São Petersburgo).

8. Fim do czarismo

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Na primeira foto, retratos do czar e da família imperial são removidos das paredes em Petrogrado. Após sua abdicação em fevereiro de 1917, Nicolau II e sua família foram aprisionados – primeiro na Tsarskoye Sielo (“aldeia do czar”), uma mansão imperial nos subúrbios de Petrogrado, depois na Dom Kuklina (“casa de Kuklin”), residência localizada em Tobolsk.

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Finalmente, foram transferidos para a Dom Ipat’ieva (“casa de Ipatiev”), localizada em Yekaterinburg, no centro do país, onde foi tirada a segunda foto. Temendo que a antiga família imperial pudesse ser libertada e provocar agitações contra o novo regime, os bolcheviques executaram o czar, sua esposa, seus cinco filhos e toda sua comitiva em maio de 1918. Os corpos seriam descobertos apenas em 1979.

9. Pravda

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Fundado em 1912, o Pravda (“verdade”, em russo) era o jornal do Partido Bolchevique. Inicialmente perseguido pelo czarismo (o jornal chegou a mudar de nome oito vezes entre 1914 e 1917), o Pravda voltou a seu nome original em 1917 e, após a Revolução, tornou-se a publicação oficial do novo regime, status que manteria até 1991. O jornal foi fechado por Boris Yeltsin em 1991, mas logo após uma publicação de mesmo nome foi criada por um grupo de jornalistas russos. O novo Pravda foi então adquirido por empresários gregos e, em 1997, voltou às mãos do Partido Comunista Russo. Se você quiser adicionar mais um veículo de comunicação de nome russo à sua leitura diária, saiba que há inclusive uma versão em português do jornal, que pode ser acessada aqui.

10. Eleição para a Assembleia Constituinte

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A intenção declarada do Governo Provisório proclamado em fevereiro/1917 era organizar eleições para uma Assembleia Constituinte, que deveria determinar os rumos do país após o fim do czarismo. Mesmo com o golpe bolchevique, as eleições de fato chegaram a ser realizadas – o que ocorreu em 25 de novembro, com a vitória do Partido Socialista Revolucionário (41% dos votos). Os bolcheviques ficaram em segundo lugar, com 23,5% dos votos. A Assembleia se reuniria uma única vez, em 18/19 de janeiro de 1918: temendo a derrota de suas propostas, os bolcheviques fecharam-na à força.

11. Guerra Civil

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Travada entre 1918 e 1922, a Guerra Civil Russa opôs os bolcheviques (“vermelhos”) a diversas forças de oposição, geralmente agrupadas sob o nome de “exércitos brancos”. O estudo do conflito é extremamente complexo: não bastassem os fatos de o exército vermelho ser um grupo em formação e de não haver coesão entre os diferentes fronts nos quais os “brancos” lutavam, a história da Guerra Civil ainda envolve a invasão germânica no final da Primeira Guerra Mundial, a existência de grupos não alinhados com nenhum dos dois lados (guerrilheiros rurais “verdes” e anarquistas “negros”), intervenções de países estrangeiros, contratações de mercenários e a atuação de movimentos separatistas (a qual resultaria na independência de nações como a Polônia e os países bálticos). Na foto, soldados pertencentes aos “vermelhos” – grupo vitorioso ao final do conflito – marcham em Kharkov, localizada na atual Ucrânia.

12. Escassez

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O comunismo, quem diria, não obteve os resultados prometidos: logo após a tomada do poder pelos bolcheviques, a economia russa entrou em colapso, com a falta de produtos básicos e uma inflação exorbitante (motivada principalmente pelo desejo dos comunistas em se acabar com o dinheiro, que em sua visão seria um instrumento para a exploração do proletariado). Inicialmente as falhas foram atribuídas à Guerra Civil, e criou-se a expressão “comunismo de guerra” para se designar a política econômica dos primeiros anos após a Revolução. Em 1921, Lênin substituiria o “comunismo de guerra” pela Novaya Ekonomicheskaya Politika (Nova Política Econômica), que basicamente era o que hoje chamamos de “capitalismo de Estado”. Na NEP, revogada por Stalin em 1928, era permitida a propriedade privada de alguns negócios, enquanto o crédito, o comércio exterior e as grandes indústrias eram controladas pelo Estado. Soa familiar?