Não, Carta Capital, as videolocadoras não são vítimas da Netflix

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John Kay, um aprendiz inglês de fabricante de pentes de tear, inventou uma “lançadeira móvel” que substituía o trabalho humano, nos primórdios da Revolução Industrial. Sua invenção permitia que os fios fossem separados uns dos outros de maneira automática, algo responsável por dobrar a produtividade dos tecelões. Apesar da contribuição ao desenvolvimento da humanidade, sua criação não angariou a menor simpatia dos operários do setor, apavorados com a perspectiva de perderem seus empregos. Em 1753, Kay teve sua residência, na pequena cidade de Bury, atacada, e seu tear quebrado. Escapou vivo por um triz.

Em 1761, James Hargreaves, um operário têxtil analfabeto de Lancashire, inventou uma “fiandeira”. Sua criação automatizava o processo de produção, o que levaria seu destino a tomar os mesmos caminhos de John Kay – em 1768 foi a vez de sua casa ser atacada. Dezenas de máquinas foram destruídas.

Em seguida veio Richard Arkwright e seu tear d’água. Sua criação possibilitava o funcionamento de máquinas têxteis por meio de uma roda d’água. E nesse ponto da história, você – leitor esperto que é – já deve ter adivinhado o desenrolar das cenas. Em 1779, foi a vez da fábrica de Arkwright, em Lancashire, ser atacada por operários. No mesmo ano, Josiah Wedgwood, avô materno de Charles Darwin e pioneiro de inovações industriais, atravessou pessoalmente uma multidão de 500 trabalhadores que lhe disseram que “andaram destruindo umas máquinas” e que pretendiam “fazer isso no país inteiro”.

A evolução nem sempre foi vista com bons olhos. As histórias aqui narradas se repetiram ao longo de toda Revolução Industrial. Dezenas de inteligências inventivas lutaram pelas suas criações, perseguidos como bruxos. O resultado conquistado pela resistência foi um grande salto na produtividade e na melhoria dos padrões de vida de toda sociedade.

Nas últimas décadas, vimos essas cenas se intensificar com ainda mais força. Videocassetes, máquinas de datilografar, toca-fitas, disquetes, aparelhos de fax – cada um deles viu seu destino respirar a poeira dos museus em nome da destruição criativa. Não sem antes angariar o desgosto de operários, críticos da sociedade de mercado e saudosistas de plantão.

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Nessa semana foi a vez da Carta Capital condenar a Netflix pelo inevitável (e melancólico) fim da HM Home Vídeo, uma tradicional videolocadora no coração de São Paulo. A Netflix, aos desavisados, é uma empresa que oferece o serviço de videos on demand e possui mais de 37 milhões de assinantes em 40 países, que assistem a um bilhão de horas em filmes, séries de TV e produções originais a cada mês. Segundo dados revelados essa semana pelo The Diffusion Group, cada usuário da Netflix assiste, em média, a uma hora e meia de conteúdo diário (o que se traduz em 45 GB de dados mensais) – um salto de 350% desde 2011. E tudo isso por um preço mensal baixíssimo – o equivalente a dois alugueis na HM.

A pergunta que não quer calar é: quem ganha com toda essa história? A Netflix universaliza a cultura e o entretenimento por um preço irrisório. Seguindo seus passos, outras empresas se lançaram no setor – atendendo a diferentes demandas, do público sofisticado ao mainstream. Serviços on demand, de forma geral, combatem o acesso estratificado à cultura. Com uma mera conexão à internet, cidadãos dos mais remotos cantos do país – cinéfilos ou não – possuem acesso a um catálogo vastíssimo de obras cinematográficas – muitos pela primeira vez, não mais precisando invejar o desenvolvimento cultural das grandes metrópoles. Em geral, o saldo é positivo pra todo mundo, especialmente para os mais pobres.

Com tudo isso, a conclusão parece inevitável: quem vitimou as videolocadoras não foi a Netflix, Carta Capital – foi a destruição criativa. 

Um brinde à evolução.

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