Os protestos de hoje não deixam dúvida: pra esquerda só é “povo” quem concorda com ela.

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Se tem uma coisa que os protestos contra o governo ensinam ao país é o modo como a esquerda tupiniquim enxerga esse ente abstrato chamado “povo”.

Sim, repare ao seu redor, caro leitor. Deslegitimar protestos populares é o novo esporte favorito dos nossos “progressistas”. É, essa turma mesmo: aquela que diz que democracia é muito mais do que urna; que é feita nas ruas, no dia a dia, na luta, na pressão popular.

A verdade é que você pode colocar um, dois, três milhões de populares nas principais esquinas do país. Pouco importa. Para a esquerda é o anti-povo. Na Terra do Contrário a lógica funciona na ordem avessa: protesto só vale quando é a favor; ser contra o sistema é apoiar o governo; fascista é quem pede menos Estado; governo popular é o governo mais impopular da história.

Povo? Para a esquerda-de-sofá não tem mistério. É aquele que apoia o governo que mais rendeu lucro para os banqueiros na história do país. É quem tá do lado de quem arranca dinheiro dos mais pobres para dar empréstimos subsidiados aos grandes empresários (só os empréstimos do BNDES em 2013, de R$190 bilhões, superaram todos os gastos com o Bolsa Família desde o início do programa). É quem aplaude político investigado que sai pelo mundo fazendo dono de empreiteira faturar milhões.

Povo é quem vota em político que faz desapropriação das moradias de gente miserável para organizar campeonato esportivo. É quem silencia ante a queda do salário dos mais pobres, na maior crise econômica que o país já viveu, que reduz o consumo de 9 em cada 10 brasileiros (só no ano passado, a queda da renda média da população foi de 7,4%, com o Nordeste liderando a catástrofe). É quem cruza os braços para o crescimento do desemprego (o maior em 7 anos) e da inflação (a maior em 12 anos), que atinge de forma especial as famílias mais humildes.

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Povo é quem está ao lado de um governo que já jogou 4 milhões de pessoas na pobreza (a projeção é que 10 milhões de pessoas saiam da classe C de volta à base da pirâmide até o final do próximo ano, praticamente anulando as conquistas do passado). É quem dá apoio a quem viu o crescimento de 269% dos assassinatos de indígenas no país na última década sem fazer nada. É quem não protesta contra um governo que, com a queda nos investimentos em segurança pública, permitiu que a população carcerária crescesse mais de 620% nos últimos anos, ao mesmo tempo em que acompanhou um salto avassalador da violência nas ruas (só o número de homicídio de mulheres cresceu 21% na última década; o crescimento de mulheres negras assassinadas no período foi de 54%).

protestos
Povo é quem não vê motivos para sair de casa e reclamar pelo fato da educação do país ter despencado nos principais exames internacionais na última década, construindo um exército de crianças carentes que saem de escolas precárias mal sabendo ler e escrever. É quem vê com bons olhos o governo que permitiu ao país ficar na última posição no ranking global de eficiência do sistema de saúde, condenando à morte todos os anos milhares de pessoas de origem simples, dependentes de uma saúde pública que mais soa como um grande abatedouro humano. É quem está do lado de um governo que fez o país entrar na maior recessão que se tem notícia nos últimos duzentos anos da nossa história econômica. E isso porque não pretendo utilizar esse espaço para falar sobre corrupção.

Povo, enfim, é quem acredita que as pessoas que questionam tudo isso, e que decidem protestar, são inevitavelmente ignorantes, de pele branca, abastadas de dinheiro e golpistas. Quem acha que não há razão para os mais pobres se mobilizarem para derrubar um governo que, não sem motivo, é o mais impopular da história. Quem faz tweets engajados dizendo que se você decide ir às ruas reclamar disso tudo inevitavelmente está apoiando os tucanos, Eduardo Cunha, o PMDB, a ditadura militar, e todos os outros monstros que a esquerda usualmente tira do guarda roupa para assustar e deslegitimar as críticas que o governo recebe – como se os próprios tucanos (de FHC a Aécio), Orestes Quércia, o PMDB, e defensores de algumas das ditaduras mais sanguinárias do mundo também não estivessem nas Diretas Já.

Assim, a única democracia que vale para os nossos “progressistas” é aquela que sustenta as bandeiras alçadas por eles mesmos. E o povo que sai às ruas protestando contra o governo é o anti-povo, inimigo das pessoas mais simples. Mesmo quando o governo luta contra o interesse dos mais pobres, mesmo quando cria uma casta de gente rica sustentada com dinheiro dos pagadores de impostos, mesmo quando barbariza a base da pirâmide. O que importa à esquerda é defender sua condição de esquerda.

Na Terra do Contrário o anti-povo é maior que o povo. Esse, a quem se diz “progressista”, só possui uma função: desempenhar o papel de gado ao lado do governo.

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