Quer prever o resultado de alguma eleição? A ciência pode te ajudar.

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A cada dois anos o Brasil vai às urnas depositar seu voto de confiança em algum candidato. Todos seguem um caminho parecido: prometem muito trabalho, mostram feitos antigos e apresentam-se como a melhor opção para ocupar o cargo desejado.

Os eleitores rapidamente absorvem o discurso e passam a defender seu candidato com unhas e dentes. Cada um tenta, ao máximo, mostrar suas qualidades e omitir seus pontos fracos.

“Estou votando nele porque é pessoa de confiança! Eu gostei do discurso e das propostas!”, é o que você provavelmente mais irá ouvir como justificativa para o voto.

Mas uma pesquisa realizada com crianças entre 5 e 13 anos mostra que as escolhas de candidatos não são feitas de maneira tão lógica assim: ela pode ser puramente visual. E desde crianças somos condicionados a agir assim. O estudo foi conduzido pelos psicólogos suíços John Antonakis e Olaf Dalgas.

Primeiro, os cientistas selecionaram algumas crianças e pré-adolescentes e pediram para que elas participassem de uma brincadeira que simulava a viagem de Odisseu de Troia para Ítaca. Em dado momento do jogo, os participantes precisavam escolher alguém para liderar seus navios.

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Os psicólogos então distribuíram fotos desses dois homens:

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Jean-Jacques Denis à esquerda e Laurent Hénart à direita.

Seria a primeira vez que aquelas crianças veriam esses rostos: eram retratos de dois candidatos rivais que haviam disputado uma vaga no Parlamento Francês em 2002, sete anos antes da publicação do estudo.

Os pesquisadores então perguntaram para as crianças qual dos dois homens acima escolheriam como capitão para seu navio.

77% das crianças escolheram o homem da direita, Laurent Hénart, o mesmo candidato que levou a cadeira no parlamento em 2002. A taxa de acerto das crianças ficou acima dos adultos, que escolheram o vencedor em 67% das vezes.

E não terminou aí: os psicólogos ainda prepararam outras 57 pares de fotos de outros candidatos e 60% dos adultos e 64% das crianças também escolheram como capitão o candidato eleito.

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Além do pergunta envolvendo a simulação do navio, os autores da pesquisa apresentaram para mais de 680 adultos outros pares de candidatos e fizeram uma pergunta bem direta: “Qual desses dois parece mais competente?”. Mesmo sem nenhuma informação além da foto propriamente dita, 72% dos adultos escolheram como mais competente o candidato vencedor.

Apenas por curiosidade, os cientistas distribuíram fotos de Barack Obama, Hillary Clinton e John McCain e pediram para as crianças escolherem um desses candidatos como capitão da embarcação: os pequenos não só previram o resultado da corrida primária, como também acertaram o resultado das eleições finais de 2008.

Os resultados corroboram com uma série de outros estudos recentes que também indicam a possibilidade de que os candidatos que chegam ao poder não estão lá por conta de suas propostas ou de sua militância, mas sim, por conta de sua aparência.

Em 2004, pesquisadores norte-americanos aplicaram um experimento parecido, mas desta vez foram escolhidos políticos que participaram de pleitos anteriores nas eleições para o Congresso e suas fotos foram agrupadas em pares: um vencedor ao lado de um candidato que terminou em segundo lugar.

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Os pares de fotos foram, então, exibidos durante um tempo muito pequeno, de 1 segundo ou menos, para 40 voluntários, que foram instruídos a escolherem qual deles parecia mais competente, baseando-se somente na foto – os que disseram já conhecer os candidatos anteriormente foram excluídos do estudo.

Resultado: 67% dos participantes escolheram o candidato que, semanas depois, terminaria em primeiro lugar e levaria a vaga pública disputada.

Os pesquisadores ainda fizeram o mesmo teste com candidatos que concorreram em 2000 e em 2002, e os participantes novamente mostraram taxas de acerto acima dos 65% em todos os testes. Em alguns deles, os voluntários escolheram o vencedor em mais de 70% das vezes, mesmo tendo como única informação uma foto exibida por um curtíssimo período de tempo.

Já na Finlândia, outro grupo de cientistas testou a hipótese de que a proporção de cadeiras ocupadas pelos candidatos que disputaram as eleições parlamentares e municipais no país, em 2003 e 2004, também poderia ser prevista por critérios puramente visuais. Quase 2 mil fotos de candidatos foram preparadas e distribuídas para pessoas de outros países, que muito provavelmente jamais haviam visto aqueles rostos antes.

Com as fotos nas mãos, cada voluntário tinha que avaliar a competência, beleza, atração e confiança de pelo menos 4 candidatos, baseando-se somente nos retratos.

Novamente, a aparência mostrou-se mais poderosa que qualquer discurso: 63% dos candidatos que receberam notas acima da média no quesito competência foram realmente eleitos. Todos os outros fatores também ajudaram nos acertos com taxas acima dos 50% – em alguns casos mais específicos, como o de mulheres eleitas baseando-se na atração, a precisão atingiu os 72%.

Mas por mais reveladora – e chocante – que pareça a hipótese de que as eleições aproximam-se mais de um concurso de beleza do que de uma disputa de propostas baseadas em fatos, essas proposições não são novas.

Ainda em 1986, um grupo de pesquisadores nos Estados Unidos demonstrou que, mesmo em eleições simuladas, candidatos que foram classificados como “de aparência positiva” apresentavam algum tipo de vantagem sobre o concorrente.

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O estudo ajudou, na época, a formular uma hipótese mais científica do motivo pelo qual John Kennedy, um senador até então desconhecido, levou a presidência em 1960: no dia 26 de setembro, faltando pouco mais de um mês para o pleito, Kennedy e seu rival, Richard Nixon, então vice-presidente e homem público renomado, apareceram num debate televisivo, o primeiro da história dos Estados Unidos, que foi transmitido para mais de 70 milhões de pessoas ao vivo.

Kennedy preparou o melhor visual possível para a noite: vestiu seu melhor terno, fez maquiagem, passou horas procurando a melhor postura e treinou falas junto com um assessor.

Mas Nixon seguiu outro rumo: o candidato havia passado por uma internação e ainda estava magro e pálido por conta dos procedimentos médicos. Para agravar a situação, ainda negou-se a maquiar o rosto e não treinou anteriormente seu discurso.

No palco, Kennedy conquistou os eleitores americanos. Ao final daquela noite, o desconhecido senador subiu para o topo das intenções de voto.

Nixon até tentou correr atrás do prejuízo: fez dieta, treinou oratória, vestiu-se melhor. Mas já era tarde demais para desfazer a primeira impressão deixada na mente de milhões de eleitores. Mais tarde viria a admitir que sua primeira aparição na TV foi a responsável por sua derrota.

43 dias depois, Kennedy era anunciado como novo presidente dos Estados Unidos. O terno bonito, a postura de líder e a maquiagem venceram.