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Todas as revoluções socialistas fracassarão. E esse é o principal motivo.

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Há cerca de quinhentos povos aborígines na Austrália. Um deles se chama Yir-Yoront. Até o início do século vinte, os Yir-Yoront estavam completamente isolados da civilização. Viviam feito homens da caverna, sobrevivendo da caça, da coleta de vegetais e da pesca, possibilitada graças a canoas que eles construíam a partir de grandes troncos de árvore. Até o exato momento em que uns poucos missionários anglicanos alcançaram a foz do rio Coleman, no nordeste da Austrália, em 1915, nossos aborígines não tinham acesso a nenhuma grande invenção da humanidade. Pólvora, relógio, vidro, óculos, bússola, plástico, nada disso havia sido apresentado. Os Yir-Yoront desconheciam a escrita, a agricultura e a metalurgia. Não possuíam um sistema de governo, uma corte judicial ou um liceu de artes. Viviam na mais abjeta ignorância. Apesar disso, no reino da escuridão, carregavam algo que é tão antigo que se confunde com a própria natureza humana, e que ainda assim equivocadamente atribuímos ao homem moderno: um indestrutível sistema de comércio.

Como caçadores-coletores, os machados de pedra polida eram altamente valorizados entre os Yir-Yoront. Serviam para todos os fins – construir moradias e canoas, caçar, juntar lenha, extrair raízes. Só havia um porém nessa história: as pedreiras mais próximas da tribo ficavam há seiscentos quilômetros ao sul. Longas viagens em busca da criação de seus doces machados poderiam levar anos de caminhada num cenário tão selvagem quanto o de Mad Max. Felizmente, havia o comércio. Toda pedra que os Yir-Yoront precisavam chegava regularmente através de outras tribos que viviam perto das pedreiras – uma longa fila de verdadeiros parceiros comerciais passavam as pedras de mão em mão, em troca de outros produtos. Enquanto isso, na vantagem comparativa, lanças com pontas providas de ferrão de arraia faziam o caminho inverso.

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Os Yir-Yoront eram intermediários nesse processo: compravam machados de pedra dos vizinhos do sul em troca de lanças de ferrão de arraia, enquanto vendiam machados de pedra para os vizinhos do norte por mais um punhado de lanças. No meio disso tudo, obtinham aquela palavrinha tão amaldiçoada por uma geração absolutamente dependente da divisão de trabalho: lucro. O processo era rentável. Quanto mais ao sul, mais valiosas eram as lanças com ferrão; quanto mais ao norte, mais caros eram os machados de pedra. Cada tribo tinha sua forma de negociação e a grande maioria delas não produzia nem uma coisa, nem outra. Tudo era dirigido de forma voluntária, como se controlado por uma imensa mão invisível. Não eram necessários governos, aparatos jurídicos robustos ou agências reguladoras.

E nada disso acontecia sem um propósito. O mercado é uma extensão da natureza humana, que se tornou tão fundamental para a nossa existência quanto comer ou se comunicar. Ele é aquilo que o sociólogo alemão Georg Simmel chamava, há mais de cem anos, de “uma das mais puras e mais primitivas formas de socialização”, que cria “uma sociedade no lugar de uma mera coleção de indivíduos”.

Antes de tudo, havia o mercado. A escrita nasceu há cinco mil anos como forma de registrar as transações econômicas. Nossos primeiros documentos históricos – ainda marcas em argila cozida – são registros de transações de longa distância de grãos e metais entre a Mesopotâmia e o sul da Arábia. A matemática seguiu o mesmo caminho: foi inventada no Crescente Fértil para computar custos e estabelecer preços. A troca é parte da nossa condição há pelo menos tanto tempo quanto o Homo sapiens é uma espécie. Não por acaso, mercados são inabaláveis. Quando governos o derrubam de modo oficial, eles surgem de modo paralelo. E surgem sempre banhados de sangue.

E não vá pensando que é possível controlá-lo. A descentralização é parte fundamental da construção de um mercado. E é exatamente por isso que as economias centralizadas falham (além da evidente incapacidade do cálculo econômico). Como disse o teatrólogo tcheco Vaclav Havel, que viveu as dores de uma revolução socialista:

“Embora meu coração possa estar à esquerda do centro, sempre soube que o único sistema econômico que funciona é a economia de mercado. É a única economia natural, a única que faz sentido, a única que leva à prosperidade, porque é a única que reflete a própria natureza da vida. A essência da vida é infinita e misteriosamente multiforme e portanto, em sua plenitude e variabilidade, não pode ser contida ou planejada por qualquer inteligência central.”

Sim: a única economia natural. Nas ruas das principais cidades, os mercados reinam soberanos. Sobrevive ante os cassetetes policiais, percorre as gargantas nos gritos contra o rapa, resiste aos cobertores e às mercadorias clandestinas e às sacolas pretas, aquece as canelas dos ambulantes que correm em desespero. Em Hanói, no Vietnã, os moradores apelidaram os balcões de feira de “mercados de rãs”, pela agilidade dos ambulantes em fugir da polícia, levando as frutas, os legumes e os utensílios domésticos em grandes cestas. Apanhar, ver seus produtos destruídos, conviver com o medo e a repressão, são tarefas cotidianas. Nada, porém, que abale as estruturas do mercado.

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Na adversidade, o mercado é o único sopro de sobrevivência. Segundo R.A Radford, um britânico capturado pelos alemães durante a Segunda Guerra Mundial, havia um complexo mercado de guerra nos campos prisionais: os capturados negociavam as roupas e os mantimentos enviados pela Cruz Vermelha (latas de leite, geleia, manteiga, artigos de higiene e até chocolate) e usavam os cigarros como meio de troca. E tudo funcionava seguindo a mesma lógica dos mercados na esquina de onde você mora – através de oferta e demanda: sempre que chegava uma nova leva de prisioneiros famintos a comida tornava-se mais cara. Além disso, se o pão comercializado, por exemplo, fosse daquele dia, tinha um determinado preço, se fosse da semana passada, tinha outro valor.

Segundo Radford, havia até mesmo um mercado financeiro primitivo, de prisioneiros concedendo empréstimos, e um mercado de trabalho, com pessoas oferecendo serviços de pintura de retratos e de lavanderia. Alguns prisioneiros se estabeleciam como intermediários: compravam os produtos básicos nas partes mais baratas do campo e vendiam nos lugares mais caros – exatamente igual nossos Yir-Yoront. O mercado era tão complexo que era possível encontrar até um proprietário de barraca de café vendendo chá, café e cacau cobrando dois cigarros por copo.

Nos campos de refugiados ruandeses no Congo (antigo Zaire), em 1995, segundo um relatório do Alto Comissariado para Refugiados da ONU, havia cerca de 82 mil negócios – mercados de comida, restaurantes, cabeleireiros, alfaiates, fotógrafos.

Mesmo nos regimes socialistas, eles jamais foram dizimados. Na União Soviética, os mercados funcionavam à revelia. No início dos anos 60, o valor anual das mercadorias e serviços produzidos e vendidos ilegalmente na URSS representava 5 bilhões de rublos. No final dos anos 80, esse valor atingiria cerca de 90 bilhões. Em 30 anos, a economia oficial cresceu 3,6 vezes e a paralela 14 vezes. Em 1960, ela representava 3,4% do PIB oficial. Em 1988, já havia atingido 20%. Quanto mais a economia planificada falhava, mais o mercado era presente. Quanto maior era sua força, maior era a pressa do socialismo em direção à queda. Ou, como dizia uma anedota nas esquinas do leste europeu durante os últimos anos de regime – o socialismo era o caminho mais longo entre o capitalismo e o capitalismo.

No Vietnã, há um provérbio que diz:

“Tentar parar um mercado é como tentar parar um rio.”

Do mercado indígena de Otavalo, no Equador, ao Mercado Kejetia, em Kumasi, Gana; da Feira de Camelos, onde mais de 50 mil camelos são comercializados anualmente, em Pushkar, na Índia, ao Mercado Flutuante de Bangkok, na Tailândia; do Mercado de Djemaa el Fna, em Marrakech, no Marrocos, ao Mercado de Peixes Noryangjin, em Seul, na Coreia do Sul; do Mercado tribal em Bati, na Etiópia, ao Mercadão de São Paulo, no Brasil; da jangmadang norte-coreana ao mercado negro cubano – a concepção da humanidade foi moldada em torno da troca, da negociação, da busca pela vantagem comparativa, do lucro, da propriedade e do comércio. Toda tentativa de exterminar esses valores acomete uma chacina contra nossa própria natureza. Definitivamente, não há humanismo possível longe dos mercados.