Via pública fica fechada por meses, e inglês resolve construir estrada privada

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Após se frustrar por inúmeras vezes tentando convencer o poder público a consertar uma estrada próxima a sua residência, Mike Watts, um empreendedor inglês de 62 anos, resolveu arregaçar as mangas e resolver o problema por conta própria.

A história ocorreu em Kelston, um vilarejo de 248 habitantes a 13 km de Bristol, Inglaterra. Em fevereiro, um trecho da estrada A431 foi fechado por causa de uma rachadura, obrigando os habitantes da região a tomar um desvio de 14 milhas (22,5 quilômetros) e a dobrar seus gastos com combustível. Diante da demora do poder público para tocar adiante as obras necessárias para resolver a situação, Watts resolveu construir um desvio de 400 jardas de extensão (pouco mais de 350 metros) através do terreno de um fazendeiro local e cobrar um pedágio pela utilização do trecho, faturando em cima da omissão estatal.  

O espírito empreendedor do inglês o transformou em uma celebridade nacional, e sua iniciativa já virou objeto de reportagens do Telegraph e do Daily Mail.

Para construir a estrada, Watts contratou três operários de uma firma local, além de uma escavadeira, um rolo compressor e uma Caterpillar. Foram utilizados 3000 toneladas de pedras extraídas de uma mina da região. O trabalho todo levou menos de 10 dias para ficar pronto, e a estrada conta com uma pista de ida e uma de volta, sinalização de limites de velocidade (determinados por Watts), câmeras de vigilância, banheiros e uma cabine de cobrança, com equipamentos para se fazer café e chá (algo essencial em se tratando do Reino Unido).

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A obra custou £150.000 (aproximadamente R$570.000). Além desse custo, Watts estima que desembolsará uma quantia igual para a manutenção da estrada ao longo dos próximos meses, bem como £10.400 para sua desmontagem no dia em que o trecho da A431 originalmente bloqueado for liberado. Nesse meio tempo o empreendedor pretende recuperar o investimento por meio da cobrança de um pedágio, nos valores de £1 para motos, £2 para carros e vans e £3 para veículos mais pesados. Além disso, Watts liberou sua “Kelston Toll Road” gratuitamente para veículos de emergência, bem como para os dez titulares de um “gold card” por ele criado – ele próprio, sua esposa, o dono do terreno onde a estrada foi construída e alguns amigos.

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Os dez dias e os £150.000 gastos por Watts podem parecer muito para uma obra desse tamanho, mas representam muito menos que a estimativa do poder público local, que abandonou a ideia de construir um desvio similar por ter calculado que sua conclusão demandaria £1.600.000 e 16 semanas de trabalhos.

Apesar de não ter se mobilizado para o conserto da estrada original, é claro que o Estado não ficou parado diante da iniciativa individual de Watts: assim que começou a receber os primeiros pedágios, seus ganhos começaram a ser tributados com uma alíquota de 20%. Além disso, em entrevista ao Telegraph, um membro do conselho local afirmou que compreendia “as dificuldades que os cidadãos locais têm experimentado desde o fechamento de emergência da estrada, e o trabalho para a entrega de uma solução tão veloz quanto possível já começou, mas não encorajaremos propostas que não tenham sido demonstradas como seguras ou que não atendam às regulamentações legais. O conselho não tem detalhes suficientes para confirmar que a rodovia privada atenda aos requisitos de segurança”. Aparentemente, o fato de milhares de carros já terem utilizado o trecho sem qualquer registro de acidentes até o momento não é suficiente para demonstrar ao burocrata em questão a segurança da estrada construída por Watts.

Iniciativas como essa, em que indivíduos resolvem empreender e suprir por conta própria deficiências da infraestrutura estatal, são comuns em todo o mundo. Com relação a ruas e estradas, há exemplos inclusive no Brasil, mesmo com toda a burocracia inerente a obras particulares que existe por aqui. Desvios como o de Watts já foram construídos no Rio Grande do Sul e em Goiás, por exemplo. Um empresário de Serra de São Bento (RN) foi mais longe e construiu, além de uma estrada, uma praça e um ponto de ônibus, tudo com o próprio dinheiro. E, em Santa Maria de Jetibá (ES), um cidadão chegou ao ponto de construir uma ponte aberta para o uso de toda a comunidade, menos dos políticos.

O negócio, obviamente, tem seus riscos. No caso de Watts, será necessário que 1000 carros passem por dia pela Kelston Toll Road durante os próximos cinco meses somente para empatar os ganhos aos custos de construção e manutenção, sem contar os impostos. Apenas a partir de então o empreendimento do inglês começará a dar lucro – com o qual ele já adiantou para sua esposa que pretende comprar um novo trailer.

Caso esse volume de tráfego não se confirme e o investimento falhe, Watts está consciente de que ficará no prejuízo, e afirma que deverá vender a casa onde mora com a esposa para pagar as dívidas. No entanto, ele está otimista: a estrada foi inaugurada em 1º de agosto sem grande divulgação e, mesmo assim, recebeu mais de 4000 veículos somente nos cinco primeiros dias. E o número está aumentando.

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A esse ponto, a única coisa que poderia frustrar o plano de Mike Watts seria o reparo da estrada original antes do final do ano, caso no qual seu investimento naufragaria antes do término do período de amortização. Mas, como todos aqueles habituados à eficiência estatal já devem ter percebido, essa é uma possibilidade bastante remota.