A execução de Marco Archer é um crime muito mais perverso do que vender drogas

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Marco Archer Cardoso Moreira não é uma figura admirável. Seus gostos o encaixam perfeitamente na categoria do playboy: carros, iates, baladas, mulheres, hotéis de luxo; conquistas das quais ele se gaba e às quais, até alguns anos atrás, esperava voltar. A forma como ele bancava seus gostos caros também não receberá a aprovação da maioria: o tráfico de drogas. Mais especificamente, Marco era uma mula de drogas vindas da América do Sul para o resto do mundo. Seu esporte, a asa delta, dava o meio perfeito para transportar substâncias ilícitas sem ser pego. Em sua última viagem, para Bali, na Indonésia, na qual ele esperava ganhar 3,5 milhões para pagar dívidas que contraiu num hospital em Cingapura depois de um acidente de parapente, transportava 13,5 kg de cocaína dentro das hastes de carbono de sua asa delta. Infelizmente para ele, a polícia indonésia encontrou a droga e ele foi preso depois de tentar fugir.

Na Indonésia, tráfico de drogas dá pena de morte. Sendo assim, Marco é, junto com Rodrigo Gularte, pego com cocaína em sua prancha de surfe, os únicos dois brasileiros que aguardam a pena capital no mundo. O segundo e último pedido de clemência do governo brasileiro foi negado, e o governo indonésio, que em anos anteriores dava mostras de que abriria mão da pena de morte, em 2013 voltou a executar condenados e já anunciou que planeja matar o brasileiro em breve.

Marco Archer, que não é herói, é uma vítima. Vítima de um sistema insano que tenta, infrutiferamente, controlar as substâncias que as pessoas consomem para uso recreativo. Goste-se ou não, o consumo de drogas como maconha, cocaína, ecstasy e outras é uma prática cultural enraizada e dificilmente mudará. A alteração de consciência em contextos sociais como forma de facilitar a convivência ou intensificar o prazer é praticada de diversas maneiras e com diversas substâncias. Por motivos históricos particulares e totalmente contingentes, hoje em dia a única substância legal para esse fim, em quase todo o mundo, é o álcool. Avanços na legalização da maconha ocorrem vagarosamente no Ocidente, mas no Sudeste Asiático as penas duríssimas permanecem a norma.

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O forte preconceito contra as drogas é fruto da proibição legal. Há menos de um século, cocaína era vendida livremente, requerendo apenas uma receita médica (Freud, por exemplo, era um entusiasta da droga). Hoje temos, é verdade, mais noção dos danos que ela traz à saúde. Mas isso não explica a verdadeira histeria com que ela é tratada pelo grosso da opinião pública, que aceita, contudo, o consumo de álcool e de cigarros sem nada que se aproxime do mesmo grau de horror. Você conhece usuários de maconha e de cocaína. No caso desta especificamente, é altamente provável que seu músico ou artista favorito a consuma. E se você conhece usuários, deve conhecer gente que ajuda na distribuição dessas substâncias.

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Marco fazia um trabalho completamente normal, cuja aura de imoralidade é fruto direto e exclusivo da proibição. Seu destino fatídico, Bali, um dos pontos turísticos preferidos das elites mundiais, é um grande mercado de consumo de várias drogas, e funciona ainda como centro difusor para o Japão e Austrália, onde as margens são ainda mais altas. Nem a pena capital consegue dissuadir consumidores e vendedores. Ela faz aumentar o preço, e portanto o incentivo de burlar a lei e, se necessário, subornar oficiais. Na entrada do país, letras vermelhas informam os turistas de que traficar drogas dá pena de morte. Até as agências de turismo recomendam fortemente que viajantes não comprem drogas na ilha, pois os policiais estão por toda a parte. Não adianta.

A prisão de traficantes pouco faz para coibir o consumo. É fútil, e por isso mesmo ainda mais monstruoso que vidas sejam eliminadas deliberadamente nessa guerra. Ele não estava pervertendo crianças, não matava e nem roubava; apenas levava uma substância de distribuidores americanos para clientes internacionais que queriam consumi-la, seguindo o costume humano universal de alterar a própria consciência mediante substâncias.

Não importa sua posição sobre o tráfico de drogas e nem mesmo sobre a pena de morte. O que está se passando com Marco Archer, com Rodrigo Gularte e com outras pessoas, como a avó inglesa Lindsay Sandiford, é um crime muito mais perverso do que dar a pessoas adultas as substâncias que elas querem consumir. E que continuarão consumindo.